Paraná Extra

A mensagem do Natal

Daniel Medeiros*

Durante muitos anos, tive sempre uma certa dificuldade em captar a mensagem do Natal. Quando menino, ouvia as mais diversas explicaAi??Ai??es, ditas apressadamente pelos adultos: ai???Ai?? o nascimento do nosso Senhorai???; ai???Ai?? a data mais importante do mundoai???; ai???Ai?? tempo de amor e de pazai???; ai???Ai?? dia do papai Noel trazer presentesai???. Como nA?o hesitar diante de tA?o desencontradas respostas? Se Ai?? aniversA?rio de alguAi??m, cabe a nA?s dar presentes, nA?o? Se Ai?? a data mais importante do mundo, por que os governantes nA?o vA?o para a televisA?o falar sobre ela? NA?o, nA?o pode ser um tempo de amor e paz, afinal, trata-se de um dia (ou uma noite). AlAi??m disso, tempo de amor e paz nA?o Ai?? nunca, ou deveria ser sempre. Ou quase sempre, pois era preciso descontarAi?? quando eu sentia raiva do meu irmA?o, por usar minhas camisas, do meu pai, por me bater de cinta, ou da minha mA?e, por me obrigar a comer quiabo.

Sobrava a resposta mais plausAi??vel, mais razoA?vel, pelo menos para uma crianAi??a: era dia de ganhar presente. Isso implicava acreditar que, durante a noite, um homem velho, com barbas longas, silenciosamente pularia o muro, abriria a janela, entraria na sala da sua casa e deixaria presentes sob a A?rvore. NA?o, nA?o lA? em casa. NA?o havia A?rvore. O presente era deixado no pAi?? das nossas camas. Ele, portanto, saltava o muro, entrava na casa, atravessava o corredor, abria a porta do nosso quarto, no escuro (os cachorros nA?o latiam, os patos nA?o grasnavam, o galo nA?o cantava) e deixava o presente de cada um no lugar certo. Presentes embrulhados com papel das Lojas Americanas. Era adorA?vel, mas nA?o havia como nA?o questionar tudo isso. OlhA?vamo-nos, meu irmA?o e eu, titubeantes frente Ai??quelas incoerA?ncias. Mas, como o crente diante da teoria do criacionismo, deixA?vamos as lacunas e as contradiAi??Ai??es A?bvias de lado e agarrA?vamo-nos na A?nica certeza que interessava: ganhamos presentes!

Outra coisa era igualmente impactante. Na noite de Natal – havia sempre frango assado, arroz a grega e farofa, alAi??m de refrigerante (rarAi??ssimo!) – pairava um clima de assustadora tranquilidade: meus pais falavam com a voz mais pausada e Ai??ramos acarinhados com mA?os nos cabelos e beijos nas bochechas, como se tivAi??ssemos feito a liAi??A?o na hora e limpado o quintal sem ninguAi??m pedir. SA? depois descobri que essa mudanAi??a de atitude era produzida pelo ai???clima de Natalai???. Que se, no dia seguinte, a impaciA?ncia e os ruAi??dos voltassem aos nAi??veis normais, ninguAi??m questionava. O clima era o que era: sA? uma brisa passageira. Mas era tA?o bom!

DAi??cadas se passaram e, Ai?? lA?gico, busquei repetir toda essa encenaAi??A?o com meu filho. NA?o importava o quanto eu o deixava confuso com a minha separaAi??A?o da mA?e dele, nem com as minhas explosAi??es diante de suas perguntas sofridas; muito menos com as minhas ausA?ncias cada vez mais longas da sua pequena vida. No dia de Natal, havia festa e presentes e o papai Noel. AbraAi??os, palavras tremidas pela emoAi??A?o, promessas de amor e paz. Eu tentava manter o clima. E passou-se ainda mais tempo desde entA?o. Hoje, distraio-me buscando a mensagem de Natal nas memA?rias dessas dAi??cadas de eventos repetidos. E de tanto perscrutar, percebo agora que havia uma coisa a mais que sempre me escapou. Na ceia, em um certo momento – curto, distraAi??do – alguAi??m lembrava, mesmo que para fazer algum tipo de graAi??a, de Jesus. E eu me lembrava (como ainda me lembro) da histA?ria de seu nascimento. E isso sempre me emocionava. NA?o me refiro a estilizaAi??A?o ficcional da vaquinha, da manjedoura, dos trA?s reis magos. Vinha-me Ai?? mente (quase como um cheiro) o medo de JosAi?? e Maria, o desamparo, o frio, a incerteza quanto ao que ia acontecer. Aquele menino chorando, a mA?e aliviada da dor, mas angustiada com o momento seguinte; o pai atento e aflito. Esse momento de vida, esse instante na noite perdida no tempo – ou apenas criada pela imaginaAi??A?o – resume para mim a mensagem do Natal (que eu demorei tanto para aprender): hA? alguAi??m, agora, sempre, nascendo em perigo, e viverA? em perigo, sem que isso seja absolutamente necessA?rio. AlguAi??m vindo de uma mA?e e de um pai, que nA?o espera nada da vida, apenas estA? aAi??, porque foi gerado. E tudo o que serA? dele depende de como o trataremos e do que seremos para ele. O primeiro milagre de Jesus foi tornar Maria mA?e e JosAi?? pai. E esse Ai?? o comeAi??o e a possibilidade de tudo.

 

*Daniel Medeiros Ai?? doutor em EducaAi??A?o HistA?rica pela UFPR e professor no Curso Positivo.

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