Paraná Extra

As novas formas de censura

Claudio Henrique de Castro

Oitenta tiros na execução de um cidadão carioca, músico, Evaldo Rosa dos Santos, 46 anos, e o governador do Rio de Janeiro falou: “não me cabe juízo de valor”, o ministro da justiça: “incidente lamentável”, o presidente da república: ”um incidente” e o vice-presidente: “sob forte pressão e sob forte emoção” ocorrem “erros”.

Algo grave pode ser atenuado ou nem sequer divulgado da forma como poderia ser, por outro lado, coisas banais viram notícias bombásticas.

Isto há algum tempo ocorre no Brasil, a tentativa do encobrimento de fatos históricos, das versões oficiais que falseiam a realidade, normal nos regimes autoritários.

A nova forma de populismo comanda a política em vários Estados, ela se caracteriza pela colonização legalista do Estado, a polarização política incessante, se transforma em pura autocracia (PAPPAS, Takis S. Populists in Power In Journal of Democracy).

Também assistimos neste contexto o retorno da censura, pela roupagem jurídica, a ficção que aflora do jurídico. Em resumo, uma acachapante supremocracia ou ministrocracia dos dias atuais, pelo vazio dos outros poderes.

A negação ou afirmação da Constituição passa pelos atores que dizem o que ela quis dizer.

Ou a tradicional censura indireta, de fundo econômico, aquela que diminui ou corta as verbas de publicidade oficial para determinados setores, e que beneficia com favores de Estado os donos dos meios de comunicação, em caso de concordância habitual. Até passaportes diplomáticos são conquistados.

A construção dos modos de ver coletivos fabrica a notícia e a torna ficção conforme as ordens do poder da ocasião.

Vivemos numa “facebookzação” de mundo, alguns caracteres e tudo está explicado. A complexidade é censurada ou simplesmente deixada de lado.

O complexo torna-se simples pela sua descrição reduzida e até mesmo ficcional.

Esta diminuição gera uma visão equivocada de mundo que nega a realidade.

As livrarias brasileiras não resistem, entram recuperação judicial e fecham suas portas.

Minguam os escritores, pois não se leem mais livros, é o fim dos literatos e intelectuais, que não dominam a linguagem, em geral, rastaquera das redes sociais.

Quanto menos explicado, mais fácil o processo de convencimento e da sucessiva criação de ficções sobre a realidade.

Afinal, a ficção recria a realidade e até a censura.

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