Paraná Extra

Como evitar que hackers ‘invadam’ seu cérebro no futuro

Da BBC Brasil

Imagine ser capaz de navegar por suas memórias como se fosse em uma linha do tempo do Facebook, revivendo em nítidos detalhes seus momentos favoritos da vida e guardando os mais queridos.
Agora imagine uma versão distópica do mesmo futuro, no qual hackers roubam essas memórias e ameaçam apagá-las se você não pagar um resgate.

Pode soar longe da realidade, mas o cenário não é tão impossível quanto parece.
Abrindo a cabeça
Avanços no campo da neurotecnologia nos deixaram mais próximos da possibilidade de melhorar e turbinar nossas memórias, e em algumas décadas poderemos também ser capazes de manipulá-las e reescrevê-las.

Por que é importante se vacinar mesmo na idade adulta
Os 8 mitos sobre vacinação que estão levando ao ressurgimento de doenças evitáveis
A tecnologia que provavelmente nos permitirá esses feitos é a dos implantes cerebrais, que estão rapidamente se tornando ferramentas comuns para os neurocirurgiões.

Os implantes produzem a chamada estimulação profunda no cérebro, a DBS (da sigla em inglês, deep brain stimulation), para tratar gama ampla de condições, dos tremores da doença de Parkinson ao TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

Cerca de 150 mil pessoas no mundo já passaram por tratamentos experimentais com os implantes.

A tecnologia está sendo cada vez mais pesquisada nos tratamentos para depressão, demência, síndrome de Tourette e outras doenças psicológicas.

Pesquisadores estão agora começando a explorar os implantes no tratamento de distúrbios que afetam a memória, como os causados por eventos traumáticos.

A Agência de Projetos de Pesquisa em Defesa Avançada dos EUA (Darpa, em inglês) tem um programa para desenvolver e testar uma “interface neural sem fio totalmente implantável” para ajudar a restaurar a perda de memória em soldados afetados por danos traumáticos ao cérebro.

Superpoderes mentais
“Eu não me surpreenderia se um implante de memória estivesse disponível no mercado dentro dos próximos dez anos – essa é a escala de tempo de que estamos falando”, diz Laurie Pycroft, uma pesquisadora do departamento de ciências cirúrgicas na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Em 20 anos, a tecnologia pode ter evoluído o suficiente para nos permitir “capturar” os sinais que constroem nossas memórias, turbiná-los, e redirecioná-los de volta ao cérebro.

No meio do século, é possível que tenhamos ainda mais controle, com a habilidade de manipular memórias.
‘Sequestro de memória’
Mas o controle também pode ter consequências ruins. Se essa habilidade cair nas mãos erradas, as consequências podem ser “gravíssimas”, diz Pycroft.

Se um hacker invadir um neuroestimulador de um paciente com doença de Parkinson, por exemplo, e alterar as configurações, ele poderia influenciar os pensamentos e comportamento do paciente, ou mesmo causar paralisia temporária.

Um hacker também poderia ameaçar apagar ou reescrever memórias.

Se os cientistas conseguirem decodificar os sinais neurais das nossas memórias, então os cenários podem ser infinitos: pense na quantidade de informação valiosa que hackers mal intencionados poderiam coletar invadindo os servidores do hospital de veteranos em Washington, por exemplo.

Em um experimento em 2012, pesquisadores da Universidade de Oxford e da Universidade de Berkeley, na Califórnia, conseguiram desvendar informações pessoais como senhas de cartão de crédito apenas observando as ondas cerebrais de pessoas usando um headset (conjunto com microfone, óculos de visão 3D e fone de ouvido) para jogos virtuais.

Controle do passado
“A possibilidade de ‘sequestro de cérebros’ e de alterações maliciosas de memória gera uma variedade enorme de desafios para a segurança – algumas bem novas e únicas”, diz Dmitry Galov, pesquisador de segurança virtual da empresa Kaspersky Lab.

A Kaspersky e a Universidade de Oxford colaboraram em um projeto para mapear potenciais ameaças e formas de ataque envolvendo essas novas tecnologias.

“Até no estágio atual de desenvolvimento – que é mais avançado do que as pessoas se dão conta – há uma evidente tensão entre a saúde e a segurança do paciente”, diz o relatório O Mercado da Memória: Preparando-se para um Futuro onde as Ameaças Virtuais Miram seu Passado, publicado pelo grupo.

Não é impossível imaginar governos autoritários do futuro tentando reescrever a história interferindo com a memória das pessoas, e até criando novas memórias, diz o artigo.

“Dá até para imaginar essa tecnologia sendo usada para mudar o comportamento das pessoas. Você pode fazer uma pessoa mudar imediatamente o comportamento estimulando a parte do cérebro que gera emoções indesejáveis”, diz Galov à BBC.

E vice-versa: também é possível seria possível encorajar determinado comportamento estimulando a parte do cérebro que gera prazer e alegria.

Direito de imagem Getty Images Image caption Acesso ao cérebro permitiria controle do comportamento
Acesso não autorizado
Hackear dispositivos médicos conectados a pessoas é, na verdade, uma ameaça que já existe. Em 2017, autoridades americanas fizeram um recall de 465 mil marca-passos depois de avaliar que eles estavam vulneráveis à ataques cibernéticos.

A FDA, agência americana de controle de remédios e alimentos, disse que pessoas mal intencionadas podem interferir com os mecanismos, mudando o ritmo cardíaco de alguém ou acabando com a bateria, o que poderia provocar morte.

Com o recall, ninguém foi ferido, mas a agência afirmou que com aparelhos médicos cada vez mais conectados, redes de hospitais, cirurgias remotas, etc, há um aumento do risco de pessoas mal intencionadas explorarem as vulnerabilidades de segurança virtual. “Algumas (dessas vulnerabilidades) podem afetar como os aparelhos médicos operam.”

É um problema para muitas áreas médicas, e a Kaspersky acredita que, no futuro, mais aparelhos serão conectados e monitorados remotamente. Médicos só serão chamados para assumir situações de emergência.

Defesas virtuais
Felizmente, reforçar a segurança virtual no início do planejamento e desenvolvimento de aparelhos pode mitigar a maior parte dos riscos.

Mas a medida mais importante, segundo Galov, é educar médicos e pacientes sobre precauções a serem tomadas, como criar senhas fortes.

O fator humano, diz ele, é uma das maiores vulnerabilidades, porque não podemos esperar que os médicos se tornem especialistas em segurança virtual e “qualquer sistema é tão seguro quanto sua parte mais fraca”.

Pycroft diz que, no futuro, implantes cerebrais serão mais complexos e mais amplamente usados para tratar um amplo conjunto de doenças. “A confluência desses fatores provavelmente deve tornar mais fácil e atraente realizar um ataque usando implantes de pacientes”, diz ele.

“Se não criarmos soluções para a primeira geração de implantes, a segunda e terceira gerações serão bastante inseguras.”

 

 

Deixe uma resposta