Estúdio em Curitiba se destaca como ponto de encontro jovem
Quando Iasmin Rios e Carlos Eduardo, conhecido como Kadu, decidiram abrir um estúdio, o plano era simples: dividir uma sala e atender os clientes sem complicações. Iasmin, que trabalha com body piercing, e Kadu, especialista em dreads, mal podiam imaginar que, um ano depois, o Cria Cartel cresceria e se tornaria um verdadeiro ponto de encontro para a juventude de Curitiba.
No estúdio, cada serviço carrega uma história — tanto a deles quanto a de muitos outros que passaram por ali. Isso é especialmente relevante no Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, quando se relembram as culturas e identidades que estão por trás de estilos como os dreadlocks, que têm raízes profundas na África, na Índia e nas comunidades das Américas. Dreads, tranças, piercings e tatuagens são mais do que apenas estética; eles representam identidade e memória. No entanto, nem sempre as pessoas que buscam esses estilos conhecem seu significado cultural.
O público que frequenta o Cria Cartel vem de diferentes realidades e, segundo Iasmin, muitos não têm consciência do peso cultural que um dread ou uma tatuagem pode carregar. “O que une a galera aqui é a identificação com o nosso jeito de trabalhar e viver”, comenta. Essa conexão é imediata, e a conversa flui facilmente, pois as vivências são semelhantes. “É gente como a gente”, resume Iasmin, enfatizando a importância do coletivo.
As conversas diárias revelam desafios comuns enfrentados pela comunidade. Muitos ainda têm a ideia errada de que dread é sinônimo de cabelo bagunçado. Na verdade, Kadu observa que seus clientes se preocupam em manter o visual bem cuidado, desafiando essa percepção. O Cria Cartel se firmou como um espaço de acolhimento.
A história de Iasmin e Kadu começou bem antes de se tornarem sócios. Em 2022, Iasmin procurou Kadu para cuidar dos próprios dreads, seguindo a indicação de Donizete Pedro dos Santos, um grande nome no estilo em Curitiba e mentor de Kadu. Kadu lembra com carinho do seu início na área. “Fiz meus primeiros dreads com o Donizete. No começo, não tinha grana para manter e acabei fazendo em casa. Quando tirei os dreads para procurar emprego, ele me chamou para trabalhar com ele”, conta. Após nove anos de experiência, Kadu já atendeu clientes em casa e aprendeu a arte com seu mentor.
Com o tempo, Iasmin e Kadu perceberam que precisavam de mais mãos para atender a demanda e chamaram Raul, um trancista, e depois Victor Barbosa, o Vitin, e Patrick Vieira, um tatuador. Essa troca de clientes entre eles ajudou o estúdio a crescer. “Nosso público é todo o pessoal do underground, incluindo os da quebrada e os ‘crias’”, explica Iasmin. Essa identificação com a cultura e o estilo de vida foi essencial para que o Cria Cartel encontrasse seu propósito.
Agora, o estúdio está se dedicando a projetos sociais. Muitos clientes chegam enfrentando vulnerabilidades e preconceitos por causa de sua aparência ou identidade. Para Iasmin, o lucro é o que menos importa nesse momento; o foco é criar um espaço acolhedor. O estúdio, localizado no segundo andar de um prédio em frente ao Terminal do Guadalupe, funciona quase como uma sala de estar, onde as pessoas podem sentar e trocar ideias, independentemente de estarem ali para um atendimento.
O nome Cria Cartel simboliza a união entre trabalhadores autônomos em busca de um objetivo comum: fortalecer o negócio e a comunidade. O termo “cria” pode ter uma conotação negativa, mas também é uma expressão de identidade e pertencimento. Patrick, um dos integrantes do estúdio, resume bem: “É na rua que a gente aprende a viver”.
O Cria Cartel cresce de dentro para fora, equilibrando presença nas redes sociais com a conexão presencial. Um publicitário cuida dos anúncios, mas a equipe também está sempre presente em eventos como batalhas de rima, quadras de basquete e feiras, onde divulgam seu trabalho. “Queremos ter um banner para levar nesses eventos, não podemos depender apenas da internet”, afirma Iasmin.
Essas experiências moldam a equipe. Vitin, por exemplo, é dreadmaker há quatro anos e começou cuidando do próprio cabelo. Ele viu a oportunidade de ganhar uma renda e agora, enquanto estuda Psicologia, percebe o trabalho de uma forma mais profunda: “O dread é uma forma de tratamento”. Já Kadu, que percebe a concorrência entre bodypiercers em Curitiba, busca se destacar estudando Instrumentação Cirúrgica. “Quero ser uma referência na área”, afirma. Patrick, dividindo seu tempo entre o trabalho, a paternidade e as tatuagens, destaca que ser tatuador vai muito além de saber desenhar. “É dedicação, como qualquer outro negócio autônomo. Se você não corre atrás, não tem retorno”, conclui.




