Mulheres negras de Curitiba compartilham histórias inspiradoras
Laura Santos, Maria Nicolas, Evanira dos Santos e Odelair Rodrigues. Você sabia que essas quatro mulheres têm muito em comum? Todas são negras, curitibanas e deixaram uma marca profunda na cultura do Paraná. Apesar de suas histórias serem diferentes, elas compartilham uma trajetória de resistência, talento e coragem, enfrentando um mundo que muitas vezes foi hostil devido ao racismo. No mês da Consciência Negra, a Fundação Cultural de Curitiba destaca essas quatro personalidades que abriram caminhos e inspiraram novas gerações de artistas e intelectuais.
A pesquisadora Ângela Medeiros, que faz parte da Fundação Cultural, enfatiza a importância dessas mulheres. “Elas abriram portas para muitas outras. A Laura Santos, por exemplo, era uma poetisa que transitava entre as elites intelectuais da sua época e foi a única mulher a integrar a Academia Paranaense de Letras”, conta Ângela. Essas histórias, que se estendem das décadas de 1940 a 1980, revelam conquistas individuais e mostram a força das mulheres negras na construção da cultura curitibana.
Laura Santos
Vamos começar falando de Laura Santos, uma poetisa que brilhou em Curitiba na metade do século 20. Nascida em 30 de novembro de 1919, Laura não se limitou apenas à escrita. Ela também foi professora de português e matemática e, mais tarde, se formou em enfermagem, atuando como educadora sanitária e orientando a população sobre cuidados de saúde até se aposentar.
A paixão pela escrita surgiu cedo. Em 1937, ela venceu um concurso literário com seu texto “História da Evolução da Aviação”. Dois anos depois, Laura se tornou uma das fundadoras da Academia de Letras José de Alencar, abrindo caminho para as vozes femininas na literatura. Em 1953, sua contribuição foi reconhecida em uma coletânea chamada “Um Século de Poesia”, onde foi a única escritora negra a participar com obras como “Poemas da Noite” e “Sangue Tropical”. Laura ousou abordar temas de amor e erotismo em uma época conservadora. Ela faleceu em 1981, mas sua herança literária continua viva através do grupo “As Filhas de Laura Santos”, formado por 11 mulheres que se inspiram em sua obra.
Evanira dos Santos
Agora, vamos falar de Evanira dos Santos, uma artista nascida em Curitiba em 1939, em uma família de músicos. Desde cedo, ela descobriu sua vocação para a música. Aos 13 anos, começou sua carreira na Rádio Guairacá e logo se destacou, participando de programas populares e até ganhando prêmios.
Com o sucesso, Evanira ganhou seu próprio programa na rádio, “Evanira Canta para Seu Almoço”. Entre 1957 e 1963, ela foi várias vezes eleita a Melhor Cantora do Paraná. Mas a música não era tudo. Em 1971, ela estreou como atriz e logo se encantou pelo teatro, fazendo cursos e se profissionalizando. Um dos seus grandes sucessos foi o show “Funeral para um Rei Negro”, que ela protagonizou no Teatro do Paiol. Nos anos 90, Evanira ainda se envolveu em produções teatrais e, após se aposentar em 2009, continua a ser uma referência na cena cultural. Hoje, com 86 anos, vive em Laguna, Santa Catarina.
Maria Nicolas
Maria Nicolas, nascida em 1899, também é uma figura importante na história de Curitiba. Com apenas 13 anos, ela já lecionava, tornando-se a primeira professora negra do Paraná. Maria não parou por aí: formou-se em Pedagogia na Universidade Federal e se dedicou a diversas atividades, como escrever, pesquisar e até pintar.
Um de seus livros mais emblemáticos, “Porque me orgulho de minha gente”, foi lançado em 1936 e suas obras são fundamentais para entender a história de Curitiba, como a série “Almas das Ruas”, que reúne a biografia de personagens que nomeiam praças e ruas na cidade. Maria viveu modestamente, dependendo da aposentadoria como professora, e faleceu em 1988, no centenário da Abolição da Escravatura, deixando um legado inestimável.
Odelair Rodrigues
Por último, temos Odelair Rodrigues, uma curitibana nascida em 1935. Desde jovem, Odelair se destacou nos estudos e se apaixonou pelo teatro. Com o apoio da mãe, ela começou sua carreira aos 17 anos e rapidamente ganhou reconhecimento. Participou de montagens estudantis e, aos 19, já estava em peças mais profissionais.
Odelair atuou em diversas novelas e peças, mostrando seu talento em papéis importantes. Em 2002, um espaço cultural foi criado em sua homenagem, reconhecendo sua contribuição para as artes cênicas no Paraná. Infelizmente, Odelair faleceu em 2003, mas seu legado continua vivo nas memórias de quem a conheceu e na história do teatro paranaense.
Essas quatro mulheres incríveis são apenas uma parte da rica tapeçaria cultural do Paraná, e suas histórias são um lembrete poderoso da força e da resiliência das mulheres negras.




